DEPOIS QUE MATARAM O MEU FILHO…

Então ela disse: “Depois que mataram o meu filho nunca mais fui normal. ” Foi por causa dessas palavras que nossa conversa tomou outro rumo.

Fechava o portão no termino de mais uma reunião no Sol Nascente. Outra vez uma ação bem-sucedida ocorrera em uma agradável manhã de sábado. Tudo foi muito bem.

Em frente a nossa base, algumas das nossas famílias formavam uma roda, riam de histórias que viveram junto a Corrente do Bem Brasília. Foram momentos divertidos que tiveram até se consolidarem no projeto. Parei e me diverti um pouco.

Quando virava para sair, alguém de longe me chamou: “Posso trocar uma palavra contigo? ”. “Até duas se quiser”, respondi em tom de brincadeira. Não sabia quem era, mas não perderei a oportunidade.

De longe uma mulher veio ao meu encontro. Era parda, com cabelo curto e crespo, tinha um semblante sério. Aparentava um possível desconforto. Rapidamente chegou bem próxima de mim: “Não sou do projeto. Não sou de nenhuma igreja. Sei que eu estou errada, sou da malandragem. Mas olhei na despensa e não tenho nada para comer. Me dá um arroz? ”. Manteve o olhar fixo em mim.

Por várias vezes repetiu ser da “malandragem”, queria deixar claro o seu estilo de vida.

Eu não perderia a oportunidade para dar um sermão. Expliquei que acompanhamos famílias e focamos na progressão delas, que o principal é capacitação e desenvolvimento, sendo assim, dar cestas sem compromisso não resolve nada e em muitos casos prejudica-os. Muitos dão cestas sem compromisso e fomentam comunidades a gerarem pedintes.

Ela compreendeu o que eu disse, com a cabeça concordou com o meu ponto de vista. Ela entendia a importância da visão e desenvolvimento para o ser humano, que o futuro precisa ser construído hoje e projetos sociais promovem ascensões para aqueles que decidem mudar de vida. Então baixou a cabeça e disse: “Depois que mataram o meu filho nunca mais fui normal”. Junto com suas palavras uma tristeza nos tocou, empatizamos com o que foi dito.

“Depois que mataram o meu filho nunca mais fui normal”. Junto com suas palavras uma tristeza nos tocou, empatizamos com o que foi dito.

Com a voz enfraquecida continuou: “Eu e meu marido só queríamos ajudar. Então deixamos ele dormir lá em casa. Foram dois meses lá. Aí teve um dia, ele deu uma surra em meu menino de quatro anos que o matou. Eu trouxe para minha casa o assassino do meu filho”. Ela parou de falar. Uma das mulheres que estavam comigo foi ao seu encontro e abraçou fortemente. Mesmo com a cabeça baixa podíamos notar as lágrimas escorrendo.

Ela levando a cabeça e olhou para o lado, estava desconfortável com o rumo que a conversa tinha tomado. Nem ela compreendeu porque disse isso. Tentou disfarçar o que já estava nítido para todos nós. Ela nunca se perdoou pelo ocorrido. Se ele estivesse vivo, teria dezessete anos hoje. Ele não sobreviveu a surra e nem ela, suas vidas pararam simultaneamente.

Ela precisava se perdoar e seguir adiante. Não consigo imaginar o que passava na cabeça dela, a dor parecia muito presente ainda. Não sei o que ela tentou fazer para esquecer, mas nada teve sucesso aparentemente. Tentei fazer o que outros provavelmente tentaram fazer, tentei tira-la da caverna e mostrar o brilhante sol lá fora, mas não consegui penetrar além da casca. Com a face coberta de lágrimas me olhava atentamente e pressionava os lábios entre si em sinal de angustia. Sei que é um longo processo a percorrer.

Ela afirmou que ainda não está preparada para mudar. Ela compreende que precisa de uma igreja, mas não está preparada para isso agora.

Fui lá dentro da base e peguei uma cesta de alimentos. Quando retornei, ela estava sentada na mureta. Estendeu as mãos para receber e agradeceu. Saiu abraçada com as demais mulheres que estavam lá.

Existem prisões que só podem ser abertas pelo lado de dentro, existem limitações que precisamos trabalhar para vencer. Precisamos desenvolver pessoas, cada uma no seu tempo e na forma que for possível, um passo por vez. Acredito que para nós, já tivemos o primeiro passo.

Fotos da Ação de Sábado

Nesse último sábado atendemos quarenta e cinco famílias. Além da cesta de alimentos promovendo uma reunião e falamos sobre maturidade. Apresentamos todos os projetos atuais que estamos desenvolvendo: cursos de costura, cursos de tecnologia, capacitação e atendimento ao cliente junto aos mercados, leiturinha e as novas parcerias que estamos desenvolvendo.

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Você pode colaborar para que crianças tenham a sua primeira festinha de aniversário.

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Moisés Nogueira de Faria
Presidente da Corrente do Bem Brasília / Generosidade.org
@moisesnogueiraoficial