Para longe do Assistencialismo

Ela esperou até o termino da nossa reunião, de tanto insistir, alguém se encheu de piedade e disse: “Vamos ajudar, doemos uma cesta”. Mas para ela não bastou; veio para o meu lado, abraçou apertado e disse: “Quero também uma ave de natal”. Ela não se satisfez com a cesta, queria também o chester. Recebeu uma negativa. Insistiu um pouco mais até desistir.

Doar para quem não se conhece é muito perigoso. Não se sabe o histórico da pessoa. Pode ser um caso real de necessidade urgente ou somente mais um “pidão” com semblante triste para ganhar mais uma doação.

Lembro-me de uma senhora que contou uma história tão triste que eu saquei minha carteira e dei tudo que tinha, minutos depois foi me falado que ela é a campeã de receber doações, vivia subindo e descendo carregando doações para sua casa abarrotada.

Os “pidões” são os primeiros das filas, são mestres em histórias tristes, são onipresentes em ações sociais e escapam fácil de propostas de trabalho e rotinas diárias. Onde tem distribuição, eles estão.

Doações aleatórias e distribuições sem regras geram pessoas com esse tipo de perfil. Ações desorganizadas aumentam o vicio daqueles que descobriram uma maneira de conseguir o seu sustento sem trabalhar. Já foram identificadas pessoas que recebem até oito cestas básicas por mês provenientes de vários projetos sociais. Eles aproveitam os corações generosos de pessoas que adentram as comunidades com carros cheios de doações para ter sempre mais um pouco.

A doação direta é uma importante ferramenta de suporte para as famílias necessitadas. As ações organizadas e planejadas permitem uma ajuda eficiente a quem realmente precisa. Mas ações sem planejamento geram assistencialismo, pois a mesma doação que vem para ajudar acaba virando um limitador para que a pessoa mude de vida.

Se a ajuda recebida provoca no assistido o acomodamento e a falta de atividade, e esse já não procura mais emprego ou mudança de vida, se garantindo somente com suas doações, a sua recolocação no mercado se tornará cada dia mais distante. Se já é difícil conseguir trabalho para quem procura, imagina para quem não quer. Receber doações é bom, mas excesso de doações prejudicam.

Existem casos de pessoas com doenças crônicas e debilidades que realmente são impossibilitadas de uma luta pessoal para conseguir o seu sustento, por isso o bom senso é importante para não promover uma injustiça. Mas, ainda sim, convivemos com pessoas deficientes e mães de deficientes que lutam diariamente para a melhoria de vida, muito mais que pessoas sãs.

Após o lançamento do nosso curso de costura, uma pessoa ajudada, que nos recebia sempre com histórias comoventes, não se atreveu a ir uma vez somente às aulas, sempre com um novo compromisso inadiável. Não somente ela, mas outras também, que diante da necessidade de frequentarem uma aula profissionalizante saíram de fininho para nunca mais voltar. Foram contar suas histórias em outras freguesias.

Gestão de Projeto Social

A gestão do projeto social, ou seja, ter um sistema de cadastros, organizar as informações, ter a gestão da interação com cada pessoa, possibilita se aprofundar na história de cada um e entender os problemas reais (não os superficiais) e propor soluções que realmente podem ajudar na melhoria de vida. É necessário mensurar o impacto da ajuda e a evolução da família após o apoio.

É necessário mensurar o impacto da ajuda e a evolução da família após o apoio.

Conseguir uma geladeira é tratar o problema superficialmente, mas identificar os traumas e desencontros familiares e promover a paz no lar gerará a transformação no lar. É necessário identificar os problemas “raízes” e doar tempo e amor para ajudar a vencer.

Algumas perguntas simples precisam ser respondidas: Quem está recebendo a doação? Ele recebe ajuda de outras pessoas? Há quanto tempo ele recebe ajuda? Qual o tamanho da sua família? Como é seu lar? Quais são os seus problemas reais? Como ele chegou onde está? O que precisa mudar? O que eles precisam além das doações físicas?

Propor tarefinha para aqueles que estão recebendo as doações permite entender o quanto eles estão envolvidos na resolução dos seus próprios problemas. Se a mudança não partir deles próprios os resultados serão sempre limitados. Não adiantar querer levar uma vara de pesca, se eles somente querem o peixe nas mãos. Se as tarefas não são cumpridas é necessária uma suspensão, para não se tornar um assistencialismo, é dar cartão vermelho para aqueles que somente querem cestas básicas sem intromissões em suas vidas.

É necessário que o assistido cumpra regras simples para receber as doações como não participar de outros projetos sociais, manter os filhos no colégio, cuidar bem da sua casa e alguém procurar trabalho ou fazer um curso profissionalizante. Eles precisam evoluir como família, mesmo que seja a passos curtos. Cada um no seu ritmo, mas um passo pelo menos.

O assistencialismo visa a manutenção da pobreza. A ajuda social se mede não pela quantidade de pessoas assistidas, mas por quantas já não precisam mais de ajuda.

Nas comunidades existem pessoas que quando investidas vão longe, como dizemos: “nos enche de orgulho”. Elas precisam ser identificadas e apoiadas. Pessoas, que possuem grandes limitações, mas com a devida ajuda, usam o suporte social como um trampolim para vencer na vida e não depender dessa ajuda para o resto da vida. Elas são testemunhos preciosos da importância das ações sociais em comunidades.

Moisés Nogueira de Faria
Gestor da Corrente do Bem Brasília
Presidente da Generosidade.org
Instagram e Facebook: @moisesnogueiraoficial

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